A escadaria que ensinou o cinema a montar
Cem anos depois, a sequência de Odessa em O Encouraçado Potemkin continua sendo a aula fundamental de montagem — citada, copiada e parodiada sem descanso.
Uma multidão festeja na escadaria do porto. Botas entram em quadro, em linha. Dali em diante, O Encouraçado Potemkin abandona qualquer naturalismo: o tempo estica, os planos colidem, uma mãe sobe contra a maré humana, um carrinho de bebê despenca degrau a degrau.
Eisenstein completaria cem anos de Potemkin provando o mesmo ponto: montagem não é costura invisível entre planos, é choque. Duas imagens se batem e produzem uma terceira coisa — uma ideia, uma emoção, um grito — que não estava em nenhuma delas.
Por que ainda estudamos Odessa
A sequência dura poucos minutos e contém um curso inteiro: eixos quebrados de propósito, escala alternando entre massa e rosto, repetição que dilata o tempo, gráfica de diagonais. É retórica pura — e funciona até em quem sabe exatamente o que está sendo feito.
A prova da vitalidade é a paródia: de Os Intocáveis, que refaz a escadaria com o carrinho na estação de trem, a inumeráveis citações em animação e publicidade. Clichê é a homenagem que a cultura presta às ideias que venceram.
Ver Potemkin hoje, em uma boa edição restaurada com a partitura de época, é assistir ao cinema descobrindo os próprios músculos. Cem anos depois, a escadaria continua descendo.
Para estudar a montagem
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